2014-06-12

M67 - C.Art.3539 Convívio 2014


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2014-04-20

M66 - C.C.S. Convívio de 2014



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2014-02-28

M65 - Chanel nº 5
Num belo fim de tarde, no Luquembo, deambulava pelo quimbo em geito de encontrar um motivo e gente boa para uma conversa.
Por peculiar sortilégio, tinha o pensamento focado na memória de Alberto Jales, cujo óbito ocorrera cerca de um ano antes (Out71) e via-me, na passada, a organizar,e trautear trocadilhos baseados em  títulos de versos  por ele escritos e cantados de forma soberba pela Amália: “Foi Deus” e “Vou dar de beber à dor”.
E nas voltas que o mundo dá suspendi a injúria e fixei-me na terra que pisava e na direcção tomada; era o arruamento estreito, tantas vezes percorrido e que me levava a passar em frente à casa pequena, de adobe cuidado, porta e janela minúsculas e cobertura zincada, o que a destacava das demais
E perpassam adjectivos, numa sequência de quase delírio … boémia, bizarra, fadista, … mas que aos poucos se instalam e ajudam a acordar o que recordava da letra de um outro fado da Amália:
A Júlia Florista boémia e fadista/ … figura bizarra/ … vendia flores, mas os seus amores jamais os vendeu/ … chinela no pé um ar de ralé, um geito de andar …
Era um facto, a deambular, vinha em busca do remanso da Júlia.
A Júlia era rapariga de corpo jovem e escorrido, senhora de uma inteligência prática notável, com resposta rápida, algumas vezes bregeira e que não embarcava em qualquer inutilidade.
Gostava de conversar com ela, palavras que iam ganhando o sabor da Nocal e navegavam em nuvens de fumo de cigarros ou de quando em vez do mutopa partilhado.
Com os meses que levava a comissão e a frequência das deslocações à sanzala, o sistema olfactivo já estava um pouco embotado.
Mas naquele fim de tarde ao entrar na casa da Júlia, havia algo de inusitado de que o inconsciente deu conta, mas que tardei a identificar.
Fitava-a e ela ria baixinho, quase envergonhada; só decorridos alguns segundos, associei que tal decorria do meu duplo “snifar”. A partir daqui foi fácil descobrir
Eis a estória:
Há cerca de dois meses, o Alf G., de partida para umas férias na Metrópole, tinha prometido à Júlia que lhe ia trazer de prenda um colar, coisa que ele sabia ia bem com a vaidade da rapariga.
Vinha já no avião, de regresso, quando se apercebeu que ia estar em falta ao prometido, e nas circunstâncias emendou para uma compra duty-free, no caso um frasquinho de perfume
Na hora de chegada justificou-se como pode, e ofereceu o Chanel nº5, cuja fragância eu, uns dias depois, estava a ter oportunidade de rever; diga-se, uma fragância resplandecente sobre o corpo chocolate, impoluto de suores, com que fazia questão de surgir, garbosa, em cada fim de tarde.

Precisavas de sair da água
Pura como uma gota erguida
Por uma onda nocturna


   Pablo Neruda, in “Os Versos do Capitão”




Azevedo

2014-02-24

M64 - Viatura minada
Numa deslocação da C.Art 3540, na ZMLeste aconteceu o que era provável.
A viatura era conduzida pelo Cabo Mecânico Flor Ferreira e estava confiada ao Soldado Condutor Gaspar Maia; ao primeiro a explosão da mina provocou uma perda de audição temporária  e o segundo ficou tristíssimo quando soube da inoperacionalidade da Berliet onde me tinha pedido que desenhasse o seu nome.
Visivel no meio dos destroços, um fragmento do pneu; jante e cubo da roda voaram cerca de 40 metros
Ao centro o Alf Abrantes, que seria ferido numa emboscada da Unita, já depois do 25Abril74, por uma bala de raspão.

À memoria do Ferreira e do Maia, que só há alguns anos fizeram a viagem final.
Azevedo


63 - Mulheres
Andam esquecidas, as mulheres que nos viram partir, e ainda aquelas de que não quisemos ou conseguimos despedir-nos.
Às mulheres que se despediam no cais de Âlcantara e ficavam a acenar com lenços, até que o navio ultrapassava a linha do horizonte, chegaram a chamar-lhes carpideiras profissionais a soldo, e nós deixamos.
Perdemo-nos no tempo sedados pela adrenalina de pisar terrenos que nos podiam ser desfavoráveis ou de um jogo de cartas a dinheiro, ou ainda compartilhando com camaradas o sabor acre de uma cerveja; e tempo de saudades escritas sobre “bate estradas”, quantas vezes tocados por lágrimas furtivas.
Mas elas, terminados os afazeres da lide diária, algumas os filhos deitados, davam-se então conta de estar sozinhas e viviam o pior dos medos, o que se recria pela imaginação.
No regresso, estranhamos os cabelos brancos…

2014-01-22

M62 - Reunião em Junho de 2014



Igreja construída segundo projecto arquitectónico do grego Alexandros Tombazis e de estruturas do eng José M Freitas, concluída em Out07, elevada a basílica em Nov11 e dedicada à Santíssima Trindade; íntegra o complexo religioso de Fátima, sendo o mais das vezes designada de a Nova Basílica de Fátima.

A reunião convívio de 2014 terá lugar aqui, em Fátima. 
A imagem acima remete pois para o santuário, para onde os homens de fé peregrinam, e os de honra respeitam.
E respeitam porque designadamente também é o local em muitos dos que estiveram em África, exorcizam medos ou ansiedades que lhes perturbaram o espirito ou aí deixaram feridas que persistem até aos dias de hoje; por mais alguns anos, o trajecto das penitências será percorrido pelos mesmos homens de camuflado desbotado pelo tempo... 
No que nos toca, de alguma forma privilegiados, será também mais uma oportunidade de celebrar a fraternidade.
E, a menos que se perfile motivo de força maior, está desde já reservado no calendário o dia 7 de Junho.
O ponto de encontro (P.E.), será cerca desta basílica; missa, para os que nela participam, às 11h00; almoço num restaurante a meia dúzia de passos.

P.E.: G.P.S. >>  N 39* 37'  46,16"      W 8* 40'  31,14

2014-01-17

M61 - 

2013-12-05

M60 - Adeus até ao meu regresso
Um dos icones da guerra colonial, é feito de palavras: “adeus até ao meu regresso”.
Mantem-se no imaginário dos expedicionários que o verbalizaram ou sonharam poder fazê-lo, bem como dos familiares, das noivas e dos amigos que, por entre dificuldades várias, ansiaram por ouvi-lo, quer pelas ondas da rádio (na altura a EN), quer, com o acrescento da imagem do falante, nas emissões da então RTP; … afinal de toda uma geração.
O epifenómeno nasceu com a gravação das mensagens natalícia e de fim de ano, reservadas ao corpo expedicionário. As que se destinavam a serem emitidas no que, à época, era o canal  único de TV, exigiam recursos técnicos com alguma sofisticaçãp; porém, quase sempre ficaram aquém dos objectivos, devido à manifesa incapacidade ou intenção, de produção de cenários naturais verosimeis; os actores principais embora empenhados, reflectiam problemas diversos da sociedade de que o vira nascer, designadamente a fraca escolaridade (cerca de 25% dos soldados não tinham na altura a 4ª classe), a dificuldade de sociabilidade, e um natural pouco à vontade para enfrentar procedimentos técnicos que eram pouco usuais ou de um cronometro omnipresene
Apesar de tudo, o “adeus até ao meu regresso” acabou  por se tornar um assunto abrangente; ou ainda se quisermos ir mas longe, susceptivel de se considerar como a singular, para não dizer a única frase “patriótica” que os mobilizados proferiam; foi também a mais transmitida nas acções de propaganda, que pretendia mostrar que os soldados estavam bem e se recomendavam.
Mas, cesse o julgamento porque "melhor experimentá-lo que julgá-lo", como escreveu o vate.
Não foi o caso tê-lo experimentado, mas andei lá perto depois de ter combinado uma colaboração em part time na gravação das mensagens de Natal da CCS.
E em que circunstâncias!
Estavamos ainda no sexto mês de comissão, que era também o penúltiplo de 1972. Numa conversa, que se poderia designar de programação informal de actividades-de-que-passe-o-tempo, ficaram definidas duas intervenções:
Primeira, a de programar e levar à cena uma festa de natal
Segunda, a de, conforme acima refiro, gravar mensagens natalicias de pessoal da contingentação da CCS, isto é do, como é sabido, recrutamento angolano, que como era uso e costume , era incorporado para completar os efectivoso das unidades metropolitnas.
É de elementar justiça, relevar que o grande dinamizador destas actividades, foi o furriel M. Para além de pessoa com singulares conhecimentos técnicos de electromecanica, que não se escusava compartilhar, conseguia brilhar em capacidade criativa onde acontecia a escassez de meios e não menos importante, era senhor de uma boa disposicão contagiante.
Portanto, o homem certo para liderar os dois projectos em carteira e como se verá, torná-las um acontecimento.
As gravações, foram a primeira acção a ser agendada.
Tratando-se apenas de registo de voz, bastavam um gravador e um microfone; acessoriamente era necessário disposição e talento para sortear os contemplados, disponibilidade para ajudar onde necessário, na estruturação da mensagem, no treino de dicção, ou na gravação da mesma e anotar identificação do falante, bem como os contactos dos que se esperava viessem a escuta-la. 
Na data-hora aprazados, avancei para o lugar combinado, que era a secção de radiomontadores, Já a aguardar, estavam o furriel M, o cabo C e mais dois ou três pandegos, habituais nas nossas práticas noturnas; mais tarde chegaram os alferes A. e M.. No exterior continuava a aguardar o grupo dos principais interessados na gravação (que no que se segue serão designaos de mensageiros), grupo constituido por pessoal de cor; era manifesta uma capacidade de desenrascanço e um espirito de iniciativa suficiente que levavam a acreditar que, quase todos, já estivessem de posse de um papel com a relação das pessoas a que vão dedicar a mensagem e o teor da mesma.
Nós, tinhamos feito o trabalho de casa e também estavamos ansiosos por começar.
Eu o furriel M. e o cabo C. sentamo-nos e um lado da mesa, e no oposto ficou uma cadeira vazia  a aguardar por cada um dos mensageiro.
O furriel M. verifica as ligações do equipamento, que se encontrava na extrema da mesa próxima do lugar que ocupava e deslocou uma caixa de cartão para ficar em frente, talvez ligeiramente à direita do eixo da cadeira vazia.
Pessoa menos avisada dirá que esta caixa em tempos, seviu para acondicionar um par de sapatos e agora, considerando a tarefa que está em curso e o facto de sob a tampa emegir um cabo que termina no gravador master, albergará um microfone.
Obtido o OK, o cabo C, levanta-se, entreabre a porta e chama o primeiro mensageiro da lista. Ele entra e sauda, após o que lhe sugerido que se ocupe a cadeira vazia. Sentado, no rosto um sorriso curto e o olhar de uma criança assustada que enfrenta pela primeir vez um juri de exame, o que inesperadament me traz, da memória profunda, registos da minha 4ª classe; mãos apoiadas e pouco contidas, volteiam o papel em eu escreveu a mensagem que espera gravar. Esforçamo-nos por criar um clima de descontração, dizendo-lhe que estamos na época natalicia e que dadas as circunstâncias queremos, ou esperamos para todos, uma noite bem passada. Seguem-se duas ou três perguntas, indagando sobre as pessoas a quem ele dedica a mensagem, nome das namoradas, e coisas assim. O sorriso fica mais solto, e amigável.
Atingimos o nivel de decontração suficiente para testar o que quer gravar … comoça a ler …faz-se um ou outro trocadilho com o que vai dizendo … quando conclui, ouve-se um “muito bem!”, ao que alguém do lado acrescenta um “vai um golinho de Nocal?” (não se oferece uma garrafa, porque de facto as disponiveis não chegam para todos) …
Parece que está tudo a correr conforme previsto e necessário a um bom momento de descontração.
Passa-se então à segunda fase, a de informação sobre o procedimento de gravação
Aqui, no esboço de guião que tinhamos feito, relevava-se a necessidade de informar sobre a rotina de gravação e garantir que, no início desta, a atenção do mensageiro estivesse focada no papel em que tinha escrito a mensagem; para o efeito, havia que ser algo incisivo no enunciar das instruçõeso, rápido no acessório, mais lento e enfático no fundamental
Tendo em consideração estes pressupostos, a mensagem final, teria de ser, algo imperativa, qualquer coisa como (e cito de memória): “rapaz, tens aqui o gravador onde as palavras vão ficar registadas, o microfone está nesta caixa, para estar protegido do barulho que estamos a fazer, … as palavras são as que estão neste papel que colocas aqui à tua frente e que já sabes ler na perfeição… a caixa do microfone está  aqui à direita, coloca a mão junto da tampa da caixa … ao meu sinal, silêncio total, …  retiramos a tampa da caixa,  … sem desviares o olhar do papel, sacas o microfone e começas a ler … o microfone sempre bem junto da boca … olha ali (estava o cabo C. exemplifica com um microfone alternativo)… compreendido??? … vou repetir …”
Acenou com a cabeça, quase sem descolar o olhar do papel, o que é bom.
Sem mais delongas dá-se uma ordem final: “atenção, ao contar “três”, tens de, sem tirar o olhar do papel, pegar no microfone, e começas a ler! … silêncio! … um, dois e TRÊS!”  
Acto continuo o furriel M. acciona o gravador e com a outra mão entreabre a caixa de cartão, para facilitar o acesso ao micro.
E …  o soldado, como bom soldado, cumpre conforme ordenado, retira o artefacto da caixa de cartão, aproxima-o da boca e começa a debitar a mensagem, … mas hélas! interrompe com exclamação súbita, a que se segue uma grande e genuina gargalhada; ainda estou a ouvir: “aqui fala o soldado F … c’um C*****HO!!!…”.

Fotografia do micro, fantasiado no Carnaval de 1973

Risadas desbragadas, que se tentam controlar para não colocar de sobreaviso os que estão no exterio, mas não é fácil.
Depois far-se-á silêncio para gravar a sério. E a mensagem que em situação normal seria grave com laivos de solenidade, a  reflectir as infinitas saudades que cada um sentia, evidencia agora  uma quota de optimismo e de partilha e adivinham-se-lhe, a intervalos, sorrisos contidos.
Veio depois outro mensageiro e mais outro e de cada vez o mesmo resultado fina de boa disposição, e de plena aceitaçao e participação no guião que tinhamos criado.
Creio que todos, os que foram seleccionados para gravar a mensagem, tiveram oportunidade de sentir o que afinal era uma oferta de abertura de relacionamento, que teve reflexos positivos nos tempos que se seguiram. 
Na parte que me toca, não foram poucas as vezes e os dias em que alguns dos mensageiros, depois, me visitaram na oficina, onde habitualmente parava, para saudar, dois dedos de conversa  e em geito de memórias boas, perguntar: “Alfero, hoje não há gravações?”
Azevedo

2013-11-28

M59 - Vivências da minha guerra

Leste de Angola – 1972 / 1974

Para me livrar de alguns fantasmas, que conforme vou envelhecendo mais se acentuam e povoam as minhas memórias, vou narrar alguns factos/casos da minha guerra, que são comuns a milhares de “jovens” que, tal como eu, tiveram vivências muito semelhantes nos cenários de guerra do Ultramar.

Tudo começou nas Caldas da Rainha, com a recruta lembro-me perfeitamente da chegada ao Quartel, e as primeiras vivências da vida militar), e depois Vendas Novas – que era um deserto e um inferno - (e onde contactei pela primeira vez com percevejos…) onde tirei a especialidade de atirador de artilharia (que mais não era que ser atirador...de G3). Em jeito de preâmbulo, acrescento que, como sou canhoto, detestava fazer fogo, porque, entre outras coisas, levava com os invólucros das balas na cara …(se bem se lembram a “janela de ejecção” dos invólucros era do lado direito da G-3).
Depois seguiu-se V. N. Gaia, onde formamos Batalhão (passei 3 Natais na tropa, porque na noite de Natal de 1971 estive de “Sargento de dia” no Rap. 2 – e mais dois em Angola…) e de seguida Viana do Castelo, onde fizemos o I.A.O.
Pelo menos estava perto de casa !!!
E, finalmente, a tão indesejada partida para o desconhecido - para a inóspita e distante África !!!

Depois de me despedir da minha mãe, irmãos e namorada na Póvoa de Varzim, eis-me a caminho do Viana do Castelo, onde estávamos aquartelados (na “Fortaleza”) para daí rumarmos a Lisboa e partirmos para Angola.
Fizemos a viagem de autocarro, tentando a malta aliviar o ambiente, mas o ânimo não era muito, como se compreenderá.
Partimos em pleno Verão – Julho/1972 – deixando para trás família, namorada, amigos.
Mas que aperto forte no peito !!! Que vontade de chorar !!! Mas um homem, e muito menos um tropa (ainda que um “puto” de 21 anos) não chora….
De Lisboa a Luanda viajamos de avião (para mim e concerteza para a grande maioria, senão mesmo para a totalidade, era a 1ª vez !!!! que o fazíamos).
Fui invadido por um tumulto de emoções e sentimentos contraditórios que se acentuaram com a chegada a Luanda.
Que sufoco, que calor (!), esse sim, foi o primeiro impacto do NOVO MUNDO, logo que saímos do avião… o contacto com o inóspito e desconhecido!!!
Fomos encaminhados para o Grafanil (género de depósito da tropa), e sinceramente não tenho ideia de que tempo aí estivemos.
Lembro-me, isso sim, da viagem até Nova Lisboa, Luso, Lucusse, Lunhamége…. desde o litoral até à “mais profunda” Angola – viagem inesquecível, pelos mais variados motivos:- cansaço, medo, deslumbramento, curiosidade….
Viagem feita em autocarros (?) ou berliets (?) na 1ª etapa (até Nova Lisboa) e depois de comboio até ao Luso, até que…eis-nos chegados a casa….
Lunhamége….imensa mata no Leste de Angola.
Aquartelamento ? Não !!! Um amontoado de tendas, num lugar no fim do mundo, com pó, muito pó, por todo o lado, sem uma única sombra, sem água, a não ser a que existia num lago (?) onde se tomava banho, onde os animais bebiam, onde se lavava a roupa, e se recolhia a água para a comida…e foi aí que vivemos durante um ano, fazendo no essencial protecção a JAEA, que andava a abrir e construir a estrada que, vinda do Luso ligaria à fronteira com a Zâmbia. Andamos nessa missão de protecção da JAEA até Lumbala, onde no dia de S. Martinho/73, apanhamos o 1º grande susto!!! A meio da tarde estávamos a jantar (sim, porque como não tínhamos luz eléctrica, jantávamos antes do anoitecer) quando, de repente, ouvimos um grande estrondo, como se fosse um trovão fortíssimo. Estávamos a ser atacados, julgávamos nós!!! Instalou-se um autêntico pânico entre o pessoal. Passados uns minutos, chegamos à conclusão que o ataque (com mísseis!!!!) estava a ser direccionado para o aquartelamento que ficava do outro lado do rio (Zambeze).
Se fosse connosco era uma tragédia. E porquê ? Porque vivíamos em barracas de lona, tínhamos um morteirozito, e a nossa protecção e abrigo era uma barreira de cerca de meio metro à volta das tendas!!! Parece mentira, mas é verdade.
Por aqui se pode imaginar como vivíamos mesmo ao ´”Deus-dará”…
À noite na companhia do Capitão Lopes- Comandante da Companhia - fomos ao outro lado ver os “estragos” provocados pela flagelação. Lembro-me perfeitamente que o campo de futebol, onde tínhamos jogado de manhã, tinha umas enormes crateras dos impactos dos mísseis disparados!!! Se o ataque tivesse ocorrido nessa manhã, talvez não estivesse agora a relatar estes acontecimentos!!!!
Parecíamos autênticos “bichos do mato” quando vínhamos à sede do Batalhão, ao Lucusse, e não me posso esquecer uma vez que fomos ao Luso !!! Cheios de pó até às entranhas, extenuados e cada viagem era uma autêntica aventura.
Parecíamos crianças deslumbradas com um brinquedo !!!
Ver gente diferente, ver mulheres (tínhamos 20/21anos !!!), poder respirar outro ar….era para nós um deslumbramento, porque vivíamos “noutro mundo”…
Ao fim de um ano, vim ao “puto” gozar um merecido mês de férias que voaram num ápice….
E o regresso custou tanto…oh, como custou….
Passado mais um tempo, rodamos para o Luando, uma zona relativamente perto de Silva Porto.
Pensávamos nós que iríamos descansar…como era razoável e merecedor.
Sonhávamos todos com a ida para o Sul, para gozo de férias, mas infelizmente saiu-nos na rifa o Luando….
Aí já havia um quartel, com casernas, cantina organizada, enfim, até havia um posto de polícia e uma casa onde vivia um agente da Pide/DGS….
A vida foi correndo, com muitas saídas para o mato, em operações militares, e com muitas futeboladas e patuscadas à mistura e sem grandes sobressaltos.
No dia 1 de Janeiro de 2004 fomos surpreendidos com um ataque da Unita a um aldeamento – Sarieza, que ainda distava do quartel uns 30/40 kms.
Fui incumbido pelo Capitão para, com um grupo de homens (uma meia dúzia) irmos para o local, o que fizemos.
Por lá ficamos uns 2/3 dias, sem novidades.
O pior estava para vir… com o aproximar do fim da nossa comissão.
Em Fevereiro/Março de 74 gozei o meu segundo mês de férias em Luanda, onde estava a minha mulher vinda da Metrópole, e com quem tinha casado em Luanda poucos meses antes, na Igreja da Sagrada Família.
Findas as férias, regressado ao quartel (e com a minha mulher a caminho de casa, na Metrópole), fui informado pelo Capitão, mal acabei de chegar ao quartel, que no dia seguinte iria integrado no 3º pelotão, no lugar do Miranda, meu amigo e colega, partir para uma base táctica (destacamento de um mês, num outro aquartelamento – em Cangumbe, perto do Munhango, onde estava sedeada a CART. 6551 - onde fazíamos várias operações militares e batidas à Unita. Aí, encontrei dois amigos poveiros:- o Álvaro Campos e o Isidro Marafona – o mundo é mesmo pequeno !!!), uma vez que aquele meu amigo ainda veio nessa altura de férias à Metrópole.
Era de Vila Chã, Vila do Conde, o meu amigo Carlos Miranda da Silva. Estou a vê-lo, alto, de olhos claros…. Bom companheiro, bom amigo.
Regressado o Miranda, eis que é a vez do meu pelotão – o 1º - partir para a base táctica.
Como eu tinha ido integrado no pelotão do Miranda aquando das suas férias, naturalmente foi ele integrado no meu pelotão na meu lugar …
No dia 6 de Maio de 1974, quando regressavam da base táctica, uma emboscada da UNITA, que incidiu fogo sobre a 1ª Berliet da coluna (vinham perto de 100 homens em várias viaturas) fez uma autêntica razia: - 6 mortos e muitos, muitos feridos !!!!!
A 1ª Berliet era onde vinha o pessoal do meu pelotão, com quem eu andava sempre, e foi aí que morreram 6 amigos meus, no meio do mato, longe de casa, longe da família, numa guerra estúpida e sem sentido…e já depois do 25 de Abril!!!!! Numa situação normal eu estaria ali !!!
E estávamos a completar 2 anos de mato!!!! Tínhamos a comissão de serviço praticamente no fim !!!!
Para que conste, o nome dos seis jovens, que nada tinham a ver com aquela guerra:- Miranda, Alexandre, Ferraz, Rochinha, Almeida (cabo cozinheiro – que nunca saía do Quartel - que tinha ido gozar férias e vinha de regresso …) e “Ribeiro Guimarães” (condutor-auto).
Fui ao local da emboscada com um grupo de homens, comandados pelo próprio Capitão, mas a tragédia já tinha acontecido. Cruzamo-nos com alguns homens que vinha a fugir, espavoridos !!!
Só me lembro do Alf. Abrantes, branco como a cal, levantar a camisa, e me mostrar um raspão de uma bala…e me ter preocupado em saber junto dos que tinham escapado se estava tudo bem (e entre eles, o meu conterrâneo Raúl).
Fiquei muito abalado, ficamos todos, com o sucedido.
Andei uns dias mesmo transtornado, traumatizado com o sucedido, porque pensava (e bem) que o Miranda tinha morrido na minha vez…
Para mitigar a minha dor, passados uns dias recebi uma carta onde a minha mulher me dava conta do nascimento do “nosso Ruquinha”.
Já era pai !!! O meu filho nasceu no dia 24 de Abril, mas eu só soube da notícia passados quase 15 dias…. Não havia telemóveis, nem internet, nem telegramas, no mato….
Passados uns tempos (em Junho/Julho), metade da Companhia foi destacada para Luanda, para a Intervenção. E eu fui um dos que marchei em direcção a Luanda.
Começava a fazer-se sentir o conflito da Independência em Luanda.
Alinhávamos 24 horas e descansávamos outras 24 horas.
Fazíamos patrulhamento nos musseques, em redor de Luanda.
Mas aí a guerra já era diferente, com cada um a pensar por si e no tempo que faltava mas era para tudo acabar de vez.
Até que em Setembro (dia 19???) embarcamos com rumo a Lisboa e ao fim da guerra.
Viajei de comboio até ao Porto e daí de táxi até casa em companhia do meu amigo Raul, também poveiro.
Enfim na Póvoa, com o seu cheirinho a maresia, em casa, com a minha mulher, o meu filhinho já com 4 meses, a minha mãe, os meus irmãos,
Outra guerra começava…a vida de todos os dias, guerra esta diferente, mas igualmente difícil, que ainda hoje se mantém viva na labuta do dia-a-dia.

Rui Bacelar (ex-Furriel)
Cart. 3540 – Angola – 1972- 1974

2013-11-25